É certo que as cidades se transformam
ao longo da história mas também é certo que a classificação do
Porto como Património Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1996,
se deve ao grau de preservação da sua identidade arquitetónica e
urbanística e à sua autenticidade... E, convenhamos, a
classificação do património faz-se com o intuito de preservar.
No momento da sua classificação o
Porto era uma cidade preservada. Preservada mas decadente. Uma cidade
de casas abandonadas, uma cidade com um enorme potencial, que urgia
proteger e requalificar, mau-grado todas as reabilitações levadas a
cabo desde os anos 70.
Ainda hoje isto é verdade mas estamos
em tempos de mudança e a mudança neste momento faz-se a grande
velocidade. À semelhança do que parece ter acontecido no século
XIX, em que grande parte dos edifícios foram renovados, hoje o Porto
está em obras.
O Porto está em obras por várias
razões. A sua classificação impulsionou o investimento na
reabilitação; a legislação sobre arrendamento alterou-se fazendo
com seja, novamente, rentável reabilitar; as pessoas querem voltar a
viver na cidade. Sobretudo, a cidade encheu-se de milhares de
turistas, vindos de todos os cantos do mundo para conhecer esta
cidade tão bonita, tão singular, tão preservada, tão cheia de
História e de histórias, tão autêntica, tão cheia de pormenores
nas suas fachadas, tão cheias de becos, ruelas e escadas
disfuncionais mas belas...
E nós, portugueses e portueneses, que
não somos “morcões”, queremos aproveitar esta oportunidade e
beneficiar das receitas que estes milhares de turistas trazem à
cidade e ao país... E para o fazer abrimos restaurantes, museus,
lojas de artesanato, serviços de aluguer de bicicletas, autocarros
turísticos, agências de viagens, hotéis e alojamentos e tudo o que
nos lembre, a nós, gente empreendedora que, abandonada pela crise,
se desunha para ganhar o pão.
Está tudo certo. Mas não está.
Porque nesta febre de reabilitação corremos o risco de desvirtuar o
carácter da cidade e destruir aquilo que nos fez merecer a
classificação e que nos traz os milhares de estrangeiros todos os
dias.
Paulatinamente, edifício a edifício,
substituímos portas maciças e nas portas as ferragens e os
batentes, substituímos caixilharias de janelas, cheias de detalhe de
marceneiros de outros tempos por caixilharias mais pobres, por vezes
simplificadas, por vezes fracas imitações, por vezes vidros
lisos... E, por vezes, não. Por vezes, há pessoas que percebem a
importância de manter o original. E optam por soluções menos
invasivas, pela preservação de soluções estéticas, por
conservar e restaurar os materiais originais ou substituir por
réplicas fiéis. Mas, por vezes poucas...
Por vezes substituem-se os azulejos
antigos por azulejos novos, quando era possível restaurar e manter
os antigos, quando as entidades de tutela “mandam” que se
mantenha a fachada. Quase sempre destroem-se os interiores: as
escadas helicoidais em madeira iluminadas pelas características
clarabóias, os soalhos, os tetos em estuque, os rodapés
altos, as ombreiras das portas, as portas interiores encimadas por
bandeiras, as janelas interiores que da pouca luz fazem muita.
Soluções iluminadas de quem só tinha duas estreitas fachadas e uma
clarabóia e com isso conseguia uma casa cheia de luz. Soluções de
arquitetos de outros tempos, arquitetos com outro tempo. Um tempo em
que tudo se fazia mais devagar, um tempo em que se construia para
viver. Um tempo diferente do nosso, em que se destrói para
sobreviver...
Ou talvez não. Talvez se destrua por
ganancia, por ignorância, por desconhecer que restaurar pode, para
além de tudo, ser mais barato do que reconstruir (é urgente
desfazer o mito). Por desconhecer ou não querer saber que esse
turista que procura o autêntico, o detalhe, a história e as
história, um dia poderá não voltar mais. Poderá não voltar por
desilusão, por já não ver na cidade o património classificado. Ou
porque os habituais destinos turísticos – hoje postos de lado
pelas guerras e pela ameaça terrorista – voltaram a estar em paz.
Ou porque o petróleo se esgotou e se acabaram as viagens “low
cost”.
Em todos os casos o que estamos a fazer
é um erro crasso. É um erro na perspetiva da rentabilização
económica por via do turismo. É um erro porque nos arriscamos a
perder a classificação. É um erro porque reabilitamos para
turismo, optando por soluções que condicionam o uso dos espaços
para esse fim, invalidando uma fácil reconversão para fins
habitacionais (vislumbro, nos seus futuros corredores desertos, um
triciclo de criança fazendo um circuito solitário e aterrorizante,
qual Shining...). É um erro porque sim, porque recebemos uma cidade
do passado que temos obrigação de transportar para o futuro em
melhores condições. Não é nosso o património. Por isso é
considerado património, por isso é da humanidade, por isso é
mundial. E nós não somos a humanidade, pois a nossa passagem é
breve. Nós não temos uma perspetiva “mundial” quando apenas
cuidados de interesses individuais e a curto prazo. O património
deixará de o ser se o descaracterizarmos. Por isso, acima de tudo,
não temos legitimidade para o destruir. É uma questão de
princípio.
Preservar o Centro Histórico do Porto
para quê? Para preservar a história, a autenticidade e a beleza da
nossa cidade. Para reabilitarmos uma cidade que se quer habitada e
que se quer visitada. Porque as pessoas que aqui vivem têm direito a
não emigrar, a criar o seu emprego, a beneficiar da conjuntura
turística favorável. Preservar esta cidade é desenvolvê-la de
forma sustentada, para que no futuro, independentemente das
conjunturas, ela possa ser uma cidade com vida, mas vida que preserve
a alma.
Ela pode e deve continuar a ser um
grande destino turístico, o turismo é bem vindo numa cidade que
carece de sustento, o sustento outrora dado pela indústria e pelo
comércio.
Ela pode e deve ser um lugar habitado,
habitado pelas velhas gentes do Porto e pelas novas. Dessa mistura
nascerá, sem dúvida, uma cidade mais rica e diversa.
O que ela não precisa é de elefantes
brancos, hotéis gigantescos cujas reabilitações destroem
completamente os seus interiores e descaracterizam fachadas,
ultrapassando qualquer norma ou diretriz das entidades que tutelam o
património. São modelos de edifícios cujas dimensão e exigências
funcionais não se compatibilizam com a preservação de antigos
edifícios habitacionais. Façam-se, portanto, fora do Centro
Histórico do Porto. Ou não se façam de todo! Ou, excecionalmente,
façam-se dentro de edifícios cuja função se perdeu e que não
tenham outra solução adequada, como antigos armazéns, edifícios
industriais (e mesmo assim há que ver com calma, caso a caso.
Ponderar...).
Enquanto as entidades de tutela se
permitem permitir este desastre, alguns particulares honram a cidade
e património, optando pelo restauro. Outros sucumbem ao lobby da
construção civil e das soluções aparentemente fáceis.
Falta debater amplamente este tema e
falta apoiar quem quer reabilitar, como outrora se fez em Guimarães,
cidade com um trabalho exemplar, a este nível. Falta ter coragem de
dizer “não” aos grandes grupos económicos que apenas visam o
lucro imediato. Infelizmente não é a eles – com dinheiro farto
mas estreiteza de vistas – que compete defender o património e a
cidade. Defender o Porto compete às entidades que tutelam o
património e a construção, que deviam ser mais normativas e
restritivas e menos tolerantes com os atropelos constantes às suas
próprias diretrizes.
E compete-nos a nós, cidadãos que
amamos esta cidade e que a queremos habitada, limpa, reabilitada mas
autêntica. Que queremos turismo mas de turistas que voltem e tornem
a voltar.