segunda-feira, 3 de novembro de 2014
5 anos: torrente de perguntas
Júlia. Cinco anos. Sentada no sofá. Olhar posto lá fora.
"- Mãe... Como apareceu a primeira pessoa?"
Longa resposta da mãe: que não foi de um dia para o outro, que o planeta terra quando nasceu não tinha vida... o primeiro mamífero... uma longa transformação... os nossos antepassados braqueadores... a semelhança com os nossos primos chimpanzés... a evolução das mãos, a criação de objetos, a descoberta do fogo, a caça e a linguagem, as cabanas e andar de terra em terra, a a perseguição das manadas, as alterações climatéricas, a actividade recolectora, a observação do crescimento das plantas e a invenção da agricultura, fomos deixando de andar atrás dos animais...
Ufa, como é difícil explicar isto a uma criança de 5 anos!
"- E... como apareceram as lareiras, as cadeiras, os brinquedos, os sofás, os carros...?"
Vou respondendo a tudo até saciar a curiosidade da menina. Deita-se no sofá, encosta a cabeça para adormecer.
"-Mãe, continua a contar mais coisas."
Este é o maior prazer da maternidade. Ver um ser humano a crescer.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Sara, tu foste feita para este país mas este país não foi feito para ti
Sara, tu foste feita para
este país mas este país não foi feito para ti.
Trazes as rochas da tua
terra contigo desde criança e desde criança te debruças, observas,
interrogas. Será mesmo verdade que existe uma grade ouro no fundo do
poço do castelo? Será mesmo verdade que dentro do branco quartzo
existe ouro? Dentro do quartzo que, pequenina, tentavas carregar para
casa, para saber, para descobrir... E que o teu pai - grande pai - já
não se lembra mas te ajudou a transportar com o amor à tua
curiosidade que crescia contigo.
PAIXÃO, Sara, é a palavra
que usas e é a palavra que te define. Agora és crescida e dobras
uma folha de papel para nos explicar como Valongo se elevou acima do
nível do mar. Já não acreditas em grades de ouro mas guardas o
encanto do conhecimento. Agora olhas para as pedras que recolheste e
etiquetaste e sabes explicar a idade delas, a sua formação e
composição.
E a força de mulher é a
mesma que outrora usaste, em menina, para quebrar o quartzo à
procura do ouro.
PAIXÃO é a palavra que
usas e paixão é a palavra que te define. Corres por montes e vales
da tua terra e continuas a parar para observar e recolher, como
outrora. Chegas a casa e etiquetas. Levas crianças contigo à
procura de fósseis e acontece de elas encontrarem trilobites
completas que tu adoravas ter mas que entendes pertencerem à menina
que a encontrou. A ti não te pagam para levares crianças às
montanhas, para as ensinar a olhar o mundo de longe e de perto. A
amar, conhecer e questionar.
PAIXÃO é a palvra que usas
e paixão é a palavra que te define. Os meninos da tua terra deixam
pedras que os teus pais encontram junto ao portão. O teu trabalho
nada tem a ver com a tua paixão. Os teus pais sabem o significado
dessas pedras à porta de casa. Pedras vulgares, pedras sem interesse
mas nas quais está escrita a palavra "porquê", que tu
lhes ensinaste.
Sara, ouço o lamento dos
teus pais e de todos os pais deste país que sofrem mais do que os
filhos porque toda a vida trabalharam para que os filhos pudessem
estudar aquilo que os fascinava. Os teus pais foram enganados, Sara,
porque este país deitou fora os lugares que existiam para pessoas
como tu. E substituiu-os por cadeirões de reis imbecis, incapazes de
algum dia se debruçarem sobre uma pedra ou uma criança. O que vamos
fazer a este país onde a nossa paixão não tem lugar. Pergunto-me
quantas Saras existem no país mais triste? Pessoas ávidas de
conhecimento, cheias de curiosidade e amor, capazes de tirar o dia de
folga para saltitar por entre arbustos molhados para nos mostrar as
casas redondas que desde pequena conhece e explora, que
voluntariamente foi limpando amiúde para que as ervas não a
encobrissem.... Quem não percebe que são estas as pessoas que
deviam estar sentados nos cadeirões deste país... A deixar que a
terra dos sonhos fosse conduzida pelo conhecimento, pelo amor, pelo
esforço e pelo trabalho, pela persistência e pela tenacidade...?
Sara, em nome do nosso país, peço-te desculpa, envergonhada, por
ele não te ver, não te reconhecer, não te recolher, não te amar,
não te aproveitar. E gostaria que nunca abandonasses essa paixão
que te move pois tenho a certeza que a tua, a minha e a de todas as
Saras deste país, um dia triunfarão. Emergirão como Valongo neste
mar de mediocridade. E os fosseis sobre as quais se abaterão, esses
não serão dignos de estudo.
Foi um enorme prazer
conhecer-te!
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Germinal
Na leitura de Germinal de Émile Zola há mil ideias que me ocorrem. Difícil
é organizá-las num texto que faça justiça a esta obra que transcende o tempo em
que foi criada. Foi criada nos alvores do capitalismo, filho primogénito do
liberalismo que, por sua vez, constituiu um reação ao absolutismo que, por sua
vez constituiu uma reação ao feudalismo. Assim se foi desenvolvendo a história
nesta espiral de tese, antítese, síntese cujo processo Marx tão bem descreveu esperando,
contudo, um fim da história com todos os seres humanos em igualdade. Não
sabemos se Marx se enganou porque o fim da História não está à vista mas
acredito que estamos num momento de antítese cuja esperada
síntese não conseguimos vislumbrar.
Várias questões me perturbam com a leitura deste livro.
Retrata a luta desumana de centenas ou milhares de mineiros que, no final do século
XIX, algures em França, tentavam resistir às medidas que os administradores das
companhias mineiras tentavam tomar para diminuir o prejuízo provocado por um
momento de crise no sector. É uma lei do capitalismo: quando tudo corre bem os
lucros revertem a favor dos investidores e os trabalhadores conquistam, a custo,
parcos direitos, tirados a ferros, à custa de greves, atentados, mortes… Assim
que os ventos mudam, os prejuízos são imputados aos trabalhadores e subtraídos
diretamente aos seus salários e direitos anteriormente conquistados que passam, nestas alturas de crise, a designar-se “privilégios” ou “regalias”. Qualquer
semelhança com os dias de hoje não é pura ficção!
No passado tal como hoje, os mineiros desconhecem quem são
os donos das minas. É uma gente cujos rostos não conhecem, são os acionistas
que vivem luxuosamente sobre os lucros das minas e que, em momentos de crise, não
podem encomendar, tanto quanto antes, os últimos modelos de Paris para as suas
filhas. Parecem desconhecer que a miséria e a fome dos mineiros está diretamente
relacionada com o luxo em que vivem. Eles apenas investiram ou herdaram ações…
Que mal pode haver nisso? E como são pessoas de religião e de fé incutem nos
seus filhos os valores de caridade e de misericórdia, enternecendo-se com a sua
capacidade de despender algum do seu tempo a ajudar os pobres. Qualquer
semelhança com os dias de hoje não é pura ficção! Qual é o magnata que não se
enternece a ajudar uns meninos africanos a ser vacinados, a contribuir para a
luta contra a fome, a ajudar instituições de caridade?... Estão a tentar
lavar-se dos seus pecados ou nem sequer percebem que há uma relação causa-efeito
entre o dinheiro que lhes sobra e o dinheiro que falta aos esfomeados?
Este retrato pintado pelo Germinal é o retrato de um povo
que, cem anos antes, tinha acabado com o absolutismo e rebentado com uma
revolução que gritava “Liberdade, igualdade, fraternidade!” O fruto dessa
revolução não foi a democracia foi o liberalismo: uma classe oriunda do povo
ansiava, não por direitos iguais para todos, mas em privilégios iguais para si.
E assim floresce uma nova burguesia, alicerçada sobre o valor do mérito. Contestava os
direitos adquiridos à nascença e reclamava que fosse possível ascender pelo
trabalho e pelo mérito. No fundo reclamava apenas meios diferentes para
conseguir os mesmos fins: o estatuto da defunta nobreza, o domínio de uns
homens pelos outros. Depressa cuspiram no prato onde comeram. Depressa se
tornaram tão insensíveis como a Antonieta. Porque reclamam os mineiros?! Afinal
a Companhia não lhes dá casa e carvão de graça, acaso não tinham direito a
médico e pensão de invalidez? Se o dinheiro não lhes chegava certamente é
porque o gastavam na tasca… Nunca lhes ocorre que, com apenas um pequeno sentido
de justiça, uma pequena distribuição dos prejuízos diminuindo ao seu lucro, talvez
até os mineiros já se contentassem…
Da mesma forma hoje o capitalismo trabalha no seu próprio
suicídio, quando não quer ver que depende do consumo e do emprego para se
alimentar… As injustiças são cada vez mais intoleráveis. Os direitos
conquistados durante décadas são diariamente roubados. E sobre a miséria, deitam a culpa sobre as pessoas. Que querem elas? Não percebem que temos de
pagar uma dívida que contraímos [sem atender às reais necessidades do país]?
Que quisemos aproveitar os financiamentos para grandes obras públicas [a maioria
das quais perfeitamente supérfluas, mal geridas, mal planeadas e nas quais
também tínhamos de pagar uma percentagem do investimento e que é, essa sim, uma das razões do nosso endividamento]?
Quem os mandou viver acima das suas possibilidades senão o capitalismo
que lhes enfiava cartas no correio e lhes enchia os telemóveis de mensagens
aliciantes para se endividarem para comprarem a casa, o carro e a mobília, tudo
de uma assentada? Tudo novo! Nada de restaurar, de conservar, de reabilitar?
Nós queremos tudo novo!
Quem pensou que investir na educação, na prevenção, na
saúde, no planeamento do território, na preservação das nossas pequenas
indústrias, na reconversão da nossa agricultura de subsistência numa
agricultura inteligente, biológica, de pequenas propriedades mas de qualidade, poderiam
ser alternativas de desenvolvimento mais sustentáveis, à medida do nosso país, que agora caminhariam
sozinhas em vez de estourarem como balões que sobem alto, mas num belo dia desatam
a rebentar? Quem pensou? Houve quem pensasse mas não foram os senhores eleitos
pelo nosso povo. O mesmo povo que irrompeu nas ruas na Revolução Francesa e no
25 de Abril. O mesmo povo, traído pelos seus governantes, traído por si mesmo. E
depois de uns anos de avanço logo começamos às arrecuas com o poder político
vendido ou capturado pelo poder económico e financeiro. E agora
todos juntos não passamos de pequenos atores de um teatro de fantoches.
Nós e os políticos que elegemos. E o povo desconhece mais uma vez o rosto de
quem move os fios. E quem move os fios desconhece, ignora, despreza as
marionetas das quais, usa, abusa e descarta sempre que os entende como dejetos
do sistema. Seres que não fazem falta no momento.
Mas é deste povo, maltratado, traído, descartado, digerido e
cuspido pelas minas e pelo sistema capitalista que nasceu e há-de nascer sempre
o Germinal da revolta. E a revolta é antes de tudo um processo íntimo, uma
semente que se instala em cada indivíduo. E porque na verdade, quer acreditem
ou não, os grandes senhores de cada tempo, todos os povos, homens e mulheres, têm os mesmos direitos, são feitos
da mesma massa, possuem forças e debilidades, sensibilidade, faculdades, inteligência,
intuição, sentido de justiça e imaginação. E por isso todas as marionetas
descartadas se podem levantar, sair do palco, subir nas costas do sistema e, um
a um, cortar os fios e deixar abandonados os senhores que os desprezaram.
Neste momento da história tenho pouca fé na capacidade de
organização em massa e na resistência heróica de um povo de mineiros capaz de
passar dois meses sem comer para fazer greve. Das duas uma, ou precisamos de
voltar e este grau de injustiça generalizado (e não de apenas uma parte da população) para nos revoltarmos ou
a revolta vai ser muda e individual. A revolta que pode minar por baixo os
alicerces do capitalismo pode ser tão somente um virar de costas. Não temos
dinheiro, não consumimos. Felizmente já não somos analfabetos e existe uma
quantidade suficiente de desempregados letrados e informados para voltarem
costas ao sistema, se organizarem em pequenos grupos de troca e inter-ajuda,
criarem sistemas de produção alternativos. Sobre as trocas ainda não há
impostos, nem ninguém pode taxar a inter-ajuda. Solidariedade e imaginação.
Penso que este é o germinal da revolução que se está a apresentar paulatinamente
no palco da História.
Não acreditam? Ninguém acreditava no final do livro que os
mineiros venceriam por fim!
domingo, 25 de agosto de 2013
No Tempo em que o Mamadou Nasceu
"Quando o Mamadou nasceu não havia nada, nem plantas. Só animais. Existiam todos os animais da selva. Pessoas não havia. Estavam escondidas nas barrigas das mães. Todas umas dentro das outras.
Quando ele nasceu não havia borboletas, só borboletas de brincar...
(- Quem é que brincava com elas?)
- O Mamadou.
(- Quem é que fez essas borboletas?)
- Foi o pai natal que deu. Nós as duas montamos as borboletas...
(- Mas nós não existiamos...)
- Pois não. Foi dentro das barrigas das mães que nós montamos as borboletas.
(- E como é que as borboletas saiam das barrigas das mães?)
- Por aqui [umbigo]. E depois fizeram muito cocó.
(- Quem?)
- Ele.
(- Ele quem?)
- Este filho.
(- Como é que ele se chama?)
- Mamadou! Não sabes?... Mamadou Mendes da Silva.
(- E depois o que é que aconteceu?)
- Mataram os lobos todos. À noite.
(- Quem é que os matou?)
- Os maus!
(- Porquê?)
- Porque sim. Tu sabes. Tu és avó, tu sabes.As pessoas estavam todas a dormir. Foram os maus, à noite. Foi horrível, até eu chorei!
(- Porquê?)
- Porque mataram os lobos. Nesse dia eu chorei. Sim, sim.
(- E depois o que aconteceu?)
- Nada. Acabou-se a história."
por Júlia Espiridião (4 anos)
terça-feira, 30 de julho de 2013
A maravilhosa idade dos porquês
- Mãe, quando o pai pôs a semente, tu disseste, como é que me desenhaste?
- Como é que quê , filha?
- Como é que me desenhaste?
(Silêncio da mãe: o que é que eu respondo?...)
- Não fui eu que te desenhei filha, foste tu que te desenhaste...
- Como?
- Tinhas um lápis e um espelho e começas-te a desenhar, os olhos, a boca, o nariz...
- E como é que eu tinha um lápis na barriga?
- Já levavas dentro da sementinha.
- Ah...
Na verdade segue na sequência da conversa de há uns dias:
À mesa...
(...)
- Tu nessa altura ainda não existias, filha.
- Ah?...
- Não existias...
- Ah?
- Não existias. Agora estás aqui. Eu faço assim e toco-te. Tu estás aqui. Na altura eu fazia assim (esbracejo) e não te conseguia tocar. Porque tu não existias... Não tinhas nascido...
- Ah?...
- Não tinhas nascido.
(Silêncio pensativo)
- Como uma flor?
- Exactamente! Como uma flor!
- Como?
- Foi uma semente que o pai tinha e pôs na mãe... A mãe fez de terra e a semente nasceu dentro da barriga da mãe. E tu começaste a crescer, a crescer...
- Ah...
- Como é que quê , filha?
- Como é que me desenhaste?
(Silêncio da mãe: o que é que eu respondo?...)
- Não fui eu que te desenhei filha, foste tu que te desenhaste...
- Como?
- Tinhas um lápis e um espelho e começas-te a desenhar, os olhos, a boca, o nariz...
- E como é que eu tinha um lápis na barriga?
- Já levavas dentro da sementinha.
- Ah...
Na verdade segue na sequência da conversa de há uns dias:
À mesa...
(...)
- Tu nessa altura ainda não existias, filha.
- Ah?...
- Não existias...
- Ah?
- Não existias. Agora estás aqui. Eu faço assim e toco-te. Tu estás aqui. Na altura eu fazia assim (esbracejo) e não te conseguia tocar. Porque tu não existias... Não tinhas nascido...
- Ah?...
- Não tinhas nascido.
(Silêncio pensativo)
- Como uma flor?
- Exactamente! Como uma flor!
- Como?
- Foi uma semente que o pai tinha e pôs na mãe... A mãe fez de terra e a semente nasceu dentro da barriga da mãe. E tu começaste a crescer, a crescer...
- Ah...
sábado, 27 de julho de 2013
Elogio a Marco
Acabada de assistir a uma entrevista com Alice Vieira em que ela crítica as novas alterações assépticas aos livros de Enid Blyton - onde palavras como "tareia" ou "cerveja" são substituídas por outras políticamente correctas - decidi-me finalmente a escrever sobre o "Marco" que muitos de nós viram na infância....
A memória que guardava da minha infância é que passava na televisão, uma vez por semana, ao Domingo, se a memória não me engana e que sofri durante longos meses até sentir a felicidade de o ver encontrar a mãe. E lembrava-me que tinha ficado "viciada", que detestava quando não podia ver.
Passados agora quase 40 anos tive oportunidade de o ver, de seguida, em 5 DVD´s. Primeira reacção: pasmo! O Marco bebe uma pinguita de vinho para brindar, o Marco trabalha às escondidas para ajudar a família, a mãe deixa-o para ir trabalhar para outro continente... A minha filha colada, episódio atrás de episódio, e eu cada vez mais colada também, tentando perceber o quanto o Marco pode ter sido determinante na formação do meu carácter. Desde muito pequena andava sempre com a palavra "justiça" na boca...
E apaixonei-me agora por esta história, ao ponto de parar uma tarde inteira para ver os últimos episódios com a minha filha, chorando baba e ranho com as injustiças que lhe faziam, com o racismo de que era alvo, com a emoção de perceber a generosidade de algumas pessoas que vai encontrando, com a emoção de ver este menino que, no meio de tantas desventuras, encontra sempre tempo e espaço para ajudar quem precise mais do que ele. Um menino que grita, que chora, que ri, que pula de contente, que cai de cansaço, que cai de desespero, que tem pesadelos, que é acolhido e amado por estranhos, que é defendido por desconhecidos no seu percurso. Que é maltratado e que é bem tratado pelas mais diversas pessoas, pobres ou ricas, com ou sem instrução. Porque no "Marco" não há tendências nem preconceitos sobre o sítio onde vive o bem e o mal. O mundo não é a preto e branco. É real. E a construção de juízos de valor fica a cargo da criança que vê. Ela identifica-se de imediato com o personagem: é uma criança à procura da mãe e, portanto, não é difícil cada criança se sentir na sua pele. E tudo o que fazem ao Marco fazem-no um pouco à criança que o vê, seja o bem ou seja o mal. E os maus são tão reais como os mais reais que todos nós conhecemos: são pessoas que gostam de se rir à custa dos outros, que não se conseguem pôr no lugar dos outros, que são egoístas, que fazem generalizações xenófobas, que maltratam os animais, que não se empatizam com o outro. São os maus reais, não têm cornos, nem barbatanas como nos filmes inutilmente violentos. Mas existem, coisa que não acontece em belíssimos desenhos animados que existem hoje, mas onde tudo é meigo, fofo, correcto, multi-racial e ecológico. E eu pergunto-me: que instrumentos mentais damos às nossas crianças para avaliarem com autonomia o mundo e os outros se não lhes apresentarmos de forma emotiva os problemas que inevitavelmente vão ver ou sentir? Que mal faz chorar de dor e emoção? Queremos por acaso criar máquinas politicamente correctas mas sem capacidade de reagir quando se depararem com o mal: identificar, perceber, relativizar, rejeitar sem "demonizar"... Acreditem, dentro do que de melhor vi para crianças em DVD nos últimos tempos está a Ponyo (uma verdadeira obra de arte de homenagem à tolerância e ao amor) e o Marco, pela sua força de fazer sentir emoções e fazer crescer eticamente uma criança. Que mais hei-de dizer? Foi um enorme prazer rever esta história de um menino, filho de um médico que se endivida para criar uma clínica para tratar os pobres, numa altura em que não havia assistência social e que, quando está prestes a encontrar a mãe, dá o dinheiro que tinha para a viagem, para salvar de uma pneumonia uma menina, que por ser de um bairro pobre, não tem médico que lá queira ir... Sinto que, com todo este elogio não honro verdadeiramente esta obra prima de homenagem às emoções e à generosidade mas é o melhor que consigo dizer. Ofereçam aos vossos filhos e às crianças que conhecem. Com 4 anos já ficam "colados" mas se virem mais tarde melhor.
sexta-feira, 15 de março de 2013
A crise, os velhos, as crianças e revolução
Tenho dito muitas vezes que
estamos na iminência de viver uma revolução. Dêmos uns passos
atrás para nos observarmos de longe: falamos muitas vezes de
revolução agrícola, de revolução industrial e também falamos da
revolução francesa, americana, russa e da dos cravos. Há
revoluções que partem de movimentos populares, outras partem do
exército, outras entram em movimento pela força das circunstâncias,
pelo contexto político, económico, social, cultural, técnico e
científico. Só são efetivas e verdadeiras quando se alastram aos
indivíduos. Quando eles aderem à mudança. Se a resistência
estiver latente ou oprimida então chamamos-lhe antes ditadura.
A revolução que acredito
podermos estar a viver é uma revolução como a revolução
industrial, demográfica ou científica. Acontece por força das
circunstâncias. O fim de um ciclo do sistema capitalista está a
gerar profundas alterações em vários países do mundo. Na Europa
ela sente-se agora nos países do sul. Mas crises semelhantes têm
ocorrido em países da América latina. Portanto, não tenhamos
ilusões. Este não é um problema português. É um fenómeno
global. Criamos uma sociedade baseada no supremo valor da
produtividade, lucro, investimento, especulação, consumo. Um animal
que corre atrás do próprio rabo num círculo vicioso que agora se
transformou em espiral.
Dêmos uns passos atrás
para nos observarmos de longe. Será a nossa forma de viver a melhor?
Consumimos e desperdiçamos à custa de quê e de quem? Somos felizes
assim? Mal os nossos filhos nascem começamos logo a consumir: somos
capazes de fazer horas extra para comprar o melhor dos enxovais, em
vez de começarmos a abrandar e nos dedicarmos ao namoro da ideia de
ter um filho. Parte do tempo que gastamos a trabalhar para comprar
coisas para os nosso filhos devíamos gastá-lo a brincar e a passear
com eles. Usufruir da felicidade que é ver uma criança a crescer,
cada pequeno passo, cada palavra, cada pergunta, cada gesto novo...
Esta deveria ser a nossa prioridade. Com os nosso velhos fazemos a
mesma coisa. Colocamo-los num lar ou deixamo-los a viver sozinhos.
Porquê? Não é culpa nossa. As horas de trabalho necessárias ao
pagamento de uma prestação de uma casa e de um carro obrigam-nos a
ficar reféns de um trabalho a tempo inteiro que não nos deixa tempo
livre. Nas famílias, cada vez mais pequenas e isoladas, não sobra
ninguém com mais tempo que possa assumir os cuidados das crianças e
dos idosos.
Agora, recentemente, com o
aumento do desemprego, temos ouvido notícias de que há pais a
retirar as crianças dos infantários, que há filhos a voltar para
casa dos pais, que há pais idosos a serem retirados dos lares para
irem para casa dos filhos. Fala-se quase sempre disto como de algo
negativo, como se os pais não dessem mais atenção aos filhos do
que aquela que eles têm nos infantários, como se os filhos (e os
netos!) não pudessem dar aos idosos uma felicidade muito maior do
que estar num lar. Todo esta transformação é dolorosa porque é
sempre dolorosa a adaptação. Mas não significará um progresso
maior do que aquele a que revolução industrial obrigou quando
empurrou para a cidade milhões de famílias isoladas do que lhes era
familiar, desprotegidas, a trabalhar 14 horas e a viver em condições
de absoluta falta de higiene?
Não é uma solução bem
inteligente as pessoas juntarem-se mais e inter-ajudarem-se? Que
preço estamos nós a pagar pela falsa abundância baseada não na
nossa riqueza real mas no dinheiro emprestado a juros? Não valerá
mais a pena viver com menos e viver perto de quem amamos?
Este é apenas um dos
pequenos detalhes desta transformação que se está a operar, destas
pequenas adaptações saem os sobreviventes, os que resistem, os que
recriam. O tempo livre do desemprego pode dar-nos tempo para criar
soluções e novas formas de estarmos na nossa vida. O estado deixou
de nos proteger e perdeu a sua função. Quem reina agora é um
monstro chamado anarco-liberalismo. Não foi eleito, impôs-nos
paulatinamente uma ditadura. Como abatê-lo? Eu acredito que somos
nós, os liliputianos, que vamos fazer a revolução necessária.
Adaptando-nos e contornado as dificuldades, podemos cortar as pernas
ao gigante que vive do consumo que inevitavelmente teremos que deixar
de lhe dar. Cortar as pernas a esta gigante que nos condena a uma
vida de trabalho sem amor, nem arte, nem pensamento para no fim nos
dar uma mísera reforma com a qual passearemos em excursões tristes
a recordar tudo o que não vivemos durante toda a nossa vida. Todas
as adaptações no sentido da união, solidariedade, redução do
consumo, criação de auto emprego, trabalho artesanal, práticas
agrícolas, exploração turística e cultural estão ao alcance de
todos. Porque, como diria a Nina Simone, temos as nossas mãos e estamos vivos...
Isto está a acontecer por todo o lado! E isto faz parte da
revolução! Não precisamos apenas de demitir o Miguel Relvas nem
sequer apenas o governo. Precisamos de uma alteração profunda, de
uma mudança de paradigma económico, social e político. Uma parte
desta mudança está em marcha, é inevitável, é uma adaptação
inevitável. Outra parte terá que partir de uma renovação
política. Que o novo governo se concentre em assegurar o que é
essencial para as pessoas: não é o regresso aos mercados, não é a
bolsa de valores, não é dar emprego a qualquer custo construindo
auto-estradas e escolas gigantescas para alimentar os lobies do
betão... A política do PS baseou-se na solução adotada para
superar a crise dos anos 30. mas nós agora estamos em 2013 e o
fomento do emprego fazia mais falta na educação, na saúde, no
requalificação urbana sustentável (sem atropelar o património
como anda a ser feito no Porto, visite-se o inqualificavelmente
horroroso largo no quarteirão das Cardosas).
Precisamos de renovar a
classe política colocando à frente do país toda a gente que ficou
para trás por ser demasiado honesta. Precisamos de uma política de
esquerda. A maior revolução está na mentalidade, ser capaz de
superar o medo da esquerda. A esquerda terá de se unir e o povo terá
de ser capaz de votar nela. Duas coisas bem difícieis. E isto será
apenas o início de uma mudança que devemos querer se quisermos
definir como prioridade das nossas vidas menos “coisas” e uma
vida melhor. Com aquilo que é essencial para uma vida melhor. Têm-me
dito que sou lírica, que o ser humano não muda assim de repente de
mentalidade, que as pessoas estão demasiado apaixonadas e viciadas
no consumo! Pois eu digo que bastou um dia numa viagem de comboio
para Auschwitz para milhares de seres humanos alterarem as suas
prioridades. De repente pessoas como nós definiram como prioridade a
necessidade mais básica do ser humano: sobreviver. Não me digam que
a mentalidade e a prioridades não se redefinem quando vemos os
nossos filhos a passar fome, não me digam que não muda nada quando
vemos os nosso filhos emigrar, não me digam que não muda nada
quando depois de uma vida de trabalho ficamos sem casa porque de
repente ficamos no desemprego! É inevitável mudar. E só não mudam
aqueles a quem ainda não aconteceu nada e que são incapazes de se
solidarizar com os outros. Tenhamos consciência do momento histórico
que vivemos! Entremos ativamente nesta revolução. Vamos para a rua
mas vamos também começar a discutir alternativas para as nossas
vidas e para a nossa sociedade.http://www.youtube.com/watch?v=mZVQmJVXDkk
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