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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Lua

Tenho vivido com os elementos e os sons a invadir-me o sono. Não tenho portadas nem cortinas. Todos os dias desde madrugada o sol roda em torno do meu ouvido e sopra “Acorda…”. Hoje foi a lua. Parou em frente à janela e lançou-me um feixe de luz. Primeiro integrei-a nos meus sonhos e depois abri os olhos. Lá estava ela, cheia e gorda, uma espécie de cowboy de todos os tempos apontando a sua arma.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

De volta aos buracos

Aqui estou eu de volta ao trabalho. Destapando buracos do tempo...
Encontrando objectos em silêncio que bombardeio de perguntas.

terça-feira, 18 de março de 2008

Nesta casa há buracos!

Engana-se quem diz, quado se perde alguma coisa, "Nesta casa não há buracos!". Em quase todas as casas há buracos.
Uma vez ia a entrar na cozinha e cai-me um quatro e um sete do tamanho de berlindes. Ontem, quando desmontava um forro debaixo das escadas que dão para o sotão, apareceu-me um cromo de D. Afonso Henriques suspenso por uma fina teia. Um quatro, um sete e D. Afonso Henriques... Há que saber interpretar os sinais.
Numa casa antiga há sempre buracos de onde caem objectos e buracos para onde saltam objectos. Engana-se também quem disser que os objectos não são seres vivos. São seres vivos e têm personalidades bem diferentes. Há estes que se divertem a circular no tempo. Desaparecendo da vida de umas pessoas e aparecendo na vida de outras. São os livres. E há os melgas. Aqueles dos quais não gostamos e que não desaparecem da nossa vida. Abrimos o guarda-jóias e lá está aquele brinco de feira de artesanato foleira a suplicar: "Usa-me..." "Não!". Ou aquela BIC que nos acompanha há doze anos, eternamente em fim de carga e que aparece de cada vez que se abre uma gaveta. Provavelmente a única responsável pelo inexplicável desaparecimento da nossa caneta preferida que guardamos religiosamente num local seguro.
Passo a semana em obras, na luta anti-buraco, mas fico com pena de aprisionar os objectos no tempo.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Peça da Fábrica de Cerâmica do Senhor d'Além em homenagem a um professor de Avintes




Não resisto a transcrever esta história ilustrativa do papel e estatuto dos professores noutros tempos:
"António de Oliveira Reis era professor primário oficial em Avintes, onde morava no lugar de Cabanões, na segunda metade do século XIX. Era severo na sua actividade docente. O filho de dum cerâmico local que trabalhava na Fábrica do Senhor d'Além, em Gaia, foi castigado pelo mestre e o pai quis homenagear o professor, oferecendo-lhe uma peça singular, embora sem marca. Na frente do cangirão, está o nome do professor, ladeado pelas coroas de Portugal e do Brasil. Na tampa a que só faltam dois suportes do quadro negro, encontram-se o menino choroso, o quadro negro, o compasso, o esquadro, a secretária, o tinteiro, o ponteiro, a palmatória, o livro e a pena de escrita."

LEÃO, Manuel - A Cerâmica em Vila Nova de Gaia. Fundação Manuel Leão, Vila Nova de Gaia, 1999. Vol. II, pag. 286